Uma aula para prefeito, governador e presidente

Uma aula para prefeito, governador e presidente

O exemplo de que é possível transformar vem da palafita do Bode, na Zona Sul do Recife. Hoje, no dia de articulação de blogs para tentar salvar bibliotecas comunitárias, o Pebodycount reproduz a história de Ricardo Gomes Ferraz, o Kcal Gomes, 34 anos, aquele traficante de livros. Ele mostrou ao ex-prefeito João Paulo, ao governador Eduardo Campos e ao presidente Lula como iniciar a transformação de uma comunidade pobre e violenta pelos livros. Lembro que, após conhecer Kcal, perguntei a João Paulo quantas bibliotecas ele tinha feito em 8 anos de governo. Não soube responder. A resposta o envergonhava. É isso.
Meu amigo Ivan Moraes Filho manda avisar que "quem quiser
contribuir com grana pode deixar seus tostões na conta 544-5 da Caixa Econômica Federal, agência 2193 / OP: 003. A conta está no nome da Associação Ciclo de Historias do Coque, que é parceira da Rede. Para tirar dúvidas sobre o que mais pode ser doado, entre em contato direto com os jovens articuladores da rede (Gabriel, Primo, Daniel ou quem mais atender o telefone (81) 3244.3325." Abaixo, a história da miséria e da lição dos livros.

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  Por João Valadares

A esperança de uma comunidade inteira mora, apertada, numa palafita do Bode, no bairro do Pina, Zona Sul do Recife. Lá, bem na beira do rio, lugar onde a miséria insiste em se equilibrar para sempre, repousam em poucas prateleiras e, também no chão, Machado de Assis, Cecília Meireles, Lima Barreto, Manuel Bandeira, Clarice Lispector, entre outros tesouros da literatura. Difícil de acreditar. A pobreza com um Augusto dos Anjos nas mãos. Quem não tem nada, agora já conhece Dom Quixote, do espanhol Miguel de Cervantes.

E foi assim, sem nada ao redor, só com livros, que o auxiliar de áudio Ricardo Gomes Ferraz, o Kcal Gomes, 34 anos, morador de palafita do Bode, ergueu há um ano o que apelidou de sonho comunitário. É a Livroteca Guardiã, refúgio das crianças pouco lembradas. Muitas não sabem nem ler. Pegam livros por curiosidade. Passam as páginas para olhar as figuras. Joana, 8 anos, estava com um Manuel Bandeira na mão. “Não sei ler.” O que importa é criança tocando nos livros. “Não tenho nada, mas faço tudo. Minha irmã vende crack na comunidade. Eu sou traficante de livros”, se autodefine Kcal.

A história dele é um livro. Cheia de frases de efeito. “Sou um louco responsável. Eu sou apenas mais um brasileiro. Dividido entre a escola, o sonho e o emprego. Se eu estudar serei um sábio com fome. Se eu trabalhar, mais um cidadão sem nome”, apresenta-se em forma de poema. Nascido na palafita, já viu de tudo. Perdeu uns 15 amigos assassinados no Bode. Por muitos anos, usou drogas e colocou um pé na criminalidade. “Já usei drogas. Agora, só uso livro”, diverte-se.

Aos 11 anos, leu o primeiro. Eram poemas de Cecília Meireles. Apaixonou-se e não parou mais. Conheceu Lispector e ficou ainda mais viciado nas letras. Um leitor compulsivo. “Ele fica lendo oito horas seguidas. Dorme às 5h”, comenta a mulher, Valquíria de Carvalho, 31. Não sabe precisar quantos livros já leu. “Mais de cem”, chuta. Acolhido por uma instituição chamada Criança Urgente, que atende adolescentes no bairro do Pina, enfrentou dificuldades por causa das drogas. “Sofreu muito, mas virou exemplo”, conta a irmã da Igreja do Pina Anatílica de Souza Viana, responsável pela entidade.

Kcal continuou lendo tudo o que via pela frente e passou a freqüentar os sebos do recife. Juntava alguns trocados e seguia para o centro da cidade. Algumas vezes teve que voltar caminhando do centro até o Bode. O dinheiro da passagem se transformou em um livro de Machado de Assis. “Comprei na ponte de ferro. Só tinha o dinheiro do ônibus. Demorei muito para chegar em casa e minha mulher brigou comigo. Mas tudo vale a pena, não é?”, pergunta.

A palafita, onde morava com a mulher e dois filhos, ficou pequena por causa dos livros. “Transformei minha casa, numa casa de ler. Aluguei uma por R$ 200 aqui no Bode. Um poeta italiano, amigo meu, manda R$ 100 para ajudar. Trabalho num estúdio no Pina e a situação é muito complicada. Mas não sou coitado, sou um guerreiro.” Mais de 20 crianças passam por lá todos os dias. Adriana Almeida, 12, já leu mais de 20 livros. “A gente sempre vem para cá. Eu até já sonhei com a história que tinha lido”, conta. Ao lado, Aline Maria indicava para as amigas o livro A História de Cada Um. “É sobre o retrato de sua família”, contou. Quem quiser ajudar pode encaminhar livros para o endereço Rua Eurico Vitrúvio, 124, Pina.

Para onde se olha, as letras estão lá. Os recados, que saem dos livros, são pintados nas paredes forradas de jornal. “Não somos pobres, somos roubados” é uma das mensagens. Ao lado, está escrito na janela “Todos nós estamos sentados na lama, mas alguns de nós estão olhando estrelas.”

A supervisora do Programa Educação Para Cidadania do Gabinete de Apoio às Organizações Populares (Gajop), Edna Jatobá, esteve ontem no local. Aproveitou e leu algumas histórias para as crianças. “A nossa idéia é que a juventude se reúna aqui para discutirmos políticas públicas de segurança.” Em vários momentos da entrevista, o auxiliar de áudio parou como se não acreditasse no que estava vendo. Ficou em silêncio quando foi questionado quantos amigos já haviam sido assassinados na comunidade. Algumas crianças ouviram ele recitar o poema Rio Vermelho. O fim trágico ainda é a história mais contada no Bode.

Gangue dos prédios de luxo desafia a polícia pernambucana. De novo.

Gangue dos prédios de luxo desafia a polícia pernambucana. De novo.

Entre 2002 e 2004, dezesseis apartamentos do Recife e Jaboatão dos Guararapes foram invadidos por ladrões especializados em furtos de jóias. Eles também roubavam dinheiro e outros objetos de valor,  mas tinham um canal direto para repassar anéis, colares, relógios e pulseiras caras. O prejuízo das vítimas pernambucanas teria chegado a R$ 6 milhões.

No início deste ano, a mesma modalidade voltou a ser registrada. Os inquéritos repousavam esquecidos nas gavetas da Delegacia de Roubos e Furtos.

No último fim de semana, a vítima passou a ser cinco estrelas. O desembargador e ex-presidente do Tribunal de Justiça de Pernambuco, Jones Figueiredo. Algo me diz que agora a investigação vai dar resultados. O que mostra que as velhas práticas ainda continuam mostrando suas raízes na Polícia pernambucana.

* Na foto de Hélia Scheppa, policiais civis e militares na frente do prédio do desembargador invadido no último sábado.

Pesquisa aponta Recife como capital com mais homicídios entre jovens

Pesquisa aponta Recife como capital com mais homicídios entre jovens

Pesquisa divulgada pelo Instituto Sangari (www.institutosangari.org.br) coloca o Recife como a capital brasileira com maior taxa de homicídios entre jovens de 0 a 19 anos.

A capital pernambucana aparece com uma taxa de 61,2 homicídios por 100 mil habitantes, à frente de Vitória (56,3), Maceió (52,3), Belém (41,2) e Curitiba (33,9) só para citar as cinco mais violentas.

Isso mostra que apesar dos avanços, ainda existe um grande caminho a ser percorrido até que os dados de violência no Recife e em Pernambuco possam ser comemorados.

A tabela com os dados específicos sobre homicídios de jovens está na página 53, da versão digital da pesquisa, disponível para download no site do Instituto Sangari. 

Os dados utilizados no estudo são do Datasus e IBGE de 2007.

Redução de homicídios no semestre é a maior dos últimos 8 anos


Foram 1.865 assassinatos no primeiro semestre deste ano. Uma redução de 13% em relação ao mesmo período do ano passado. O número de mortes ainda é absurdo. Longe, bem longe, de um patamar aceitável. Mas, pela primeira vez,  há uma consolidação da queda. Faz 19 meses que Pernambuco experimenta redução contínua. É fato.

Desde 2008, o número de crimes violentos letais intencionais (soma dos homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte) no mês corrente é menor do que no mesmo período do ano anterior. É inegável a mudança no modelo de gestão das polícias. Como também é inegável o envolvimento, mobilização e responsabilidade de setores do governo na luta pela diminuição de homicídios. Não há fórmula mágica.

Tão importante quanto reduzir é saber o motivo da redução. E, agora, o governo começa a ter noção das ações determinantes para a diminuição. Afasta-se das respostas genéricas e aponta ações concretas para a mudança. Importante porque é possível replicar o que vem dando certo. No texto de apresentação do PEbodycount, ressaltamos que os caminhos para mudar o quadro existem e descobri-los é uma missão difícil. Mas possível. Somos otimistas. Continuamos atentos e vigilantes. Reproduzo matéria publicada na edição de hoje no JC.  

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Por João Valadares

do JC   

Dados oficiais da Secretaria de Defesa Social (SDS) apontam redução de 13% da taxa de homicídios por 100 mil habitantes no primeiro semestre em relação ao mesmo período do ano passado. Ao analisar o quadro histórico dos primeiros semestres, desde 2003, quando o governo estruturou o mecanismo de contagem, constata-se que os índices contabilizados de janeiro a junho são os mais baixos dos últimos oito anos. Nos seis primeiros meses do ano passado, 2.120 pessoas foram assassinadas no Estado. Agora, 1.865. São 255 mortes a menos. Outro dado que reflete a consolidação da queda é que em junho, historicamente um dos meses mais violentos, foram registrados 284 assassinatos, único do ano com menos de 300 mortes violentas. É também o mês menos violento da série histórica.

As estatísticas são motivadoras. Pela primeira vez, Pernambuco registra 19 meses seguidos de redução. Desde 2008, o número de crimes violentos letais intencionais (soma dos homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte) no mês corrente é menor do que no mesmo período do ano anterior. Para o secretário de Defesa Social, Wilson Damázio, a mudança de gestão das polícias, baseada nas diretrizes do Pacto pela Vida, é determinante para o recuo. “É preciso ressaltar também o trabalho dos policiais nas operações coordenadas pela SDS”, explicou.

Das 26 Áreas Integradas de Segurança (AIS), divisão territorial para facilitar os mecanismos de cobrança de resultados, 16 apresentaram redução na taxa de assassinatos. A maior diminuição foi contabilizada na AIS Salgueiro, no Sertão. Lá, no primeiro semestre, foram sete mortes a menos, o que significou redução na taxa por 100 mil habitantes de 41%. Na AIS Araripina, também no Sertão, taxa recuou 35,1%. No Recife, o território de Campo Grande, Zona Norte, e Iputinga, Zona Oeste, teve 12 mortes a menos. Na taxa, uma diminuição de 20,3%. Chama a atenção o aumento de 52,7% na AIS Floresta. “Este caso de Floresta é específico. Houve lá uma chacina com seis mortos”, declarou o secretário.

Desde dezembro de 2009, a Polícia Civil ganhou reforço das chamadas equipes CVLI, compostas por um delegado, um escrivão e quatro agentes. Eles atuam nas Áreas Integradas de Segurança. São 37 grupos: 15 na Região Metropolitana do Recife, exceto na capital, que já é atendida pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), e 22 equipes no interior do Estado. Todos os investigadores passaram por estágio no DHPP.

REFORÇO - O chefe de Polícia Civil, Manoel Carneiro, ressaltou que o reforço na investigação específica de homicídios é um componente forte para justificar os resultados apresentados. “O importante é que esta equipe vai ao local de crime e fica na investigação até o fim. É dedicação exclusiva. Todo mundo foi capacitado no DHPP.” Carneiro fez questão de salientar o programa Malhas da Lei, desenvolvido em parceria com a Polícia Militar. “É um mecanismo para destravar mandados de prisão. Verificamos uma relação entre a prisão das pessoas e a redução dos assassinatos. Destaco também as várias inovações no planejamento operacional das ações policiais.”

A cobrança de resultados, levada a outras áreas do governo, é apontada como um dos fatores decisivos. Monitoramento de desempenho funciona da seguinte forma: Estado foi dividido em 217 circunscrições. Na capital, uma circunscrição corresponde a um agrupamento de bairros. No interior, elas podem corresponder até a um município inteiro.

Cada uma das circunscrições tem um delegado e um oficial da PM como gestores. Esses policiais prestam conta semanalmente sobre os CVLIs em suas jurisdições. Acima dos gestores de circunscrições estão os gestores das 26 áreas, que respondem a gerentes de cinco territórios, subordinados ao chefe de Polícia Civil e ao comandante da Polícia Militar. Os dois comandantes se reportam ao secretário de Defesa Social, que responde ao governador.

Uma vez por mês, o governador Eduardo Campos comanda uma reunião onde os dados de CVLI de todo o Estado são monitorados. As áreas que atingem as metas ganham a cor verde. As que registram aumento da violência ficam vermelhas.

Toda ajuda é pouco

Toda ajuda é pouco

Estive ontem em Barreiros, na Mata Sul de Pernambuco e encontrei por lá um rastro de destruição deixado pela cheia do Rio Una. Milhares de pessoas desabrigadas e um município que perdeu seus principais prédios públicos.

Andei horas pelo centro de Barreiros e não havia onde comprar uma garrafa de água. As pessoas vagavam no meio da lama catando algo que fosse possível aproveitar. Gente chorando sem saber por onde começar.

Vale destacar o trabalho da PM, dos Bombeiros e de voluntários que tentavam colocar um pouco de razão no caos.

Se você pode ajudar, não vacile. Contribua com água, comida e roupas. Toda ajuda ainda vai ser pouco para quem perdeu tudo. Mais uma vez.

 * A foto é de Alexandre Gondim

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