Pela terceira semana consecutiva, o comitê gestor do Pacto pela Vida não se reuniu. A razão é uma só, a crise na relação entre o secretário de Defesa Social, Servilho Paiva, e o comandante da Polícia Militar, José Lopes.
A relação entre os dois nunca foi amistosa e azedou de vez no processo de negociação salarial no mês passado. O coronel José Lopes recorreu diretamente ao governador para pedir um proposta melhor de reajuste.
O secretário considerou o pleito da PM extemporâneo. Dois dias depois, o Governo refez a proposta e aumentou os vencimentos dos militares acima do que estava posto até o dia da reunião entre o coronel Lopes e o governador.
Diante de tudo isso, existem quatro opções para o governador:
1- Exonera o secretário e o comandante da PM.
2- Exonera apenas o secretário.
3- Exonera apenas o comandante da PM.
4- Mantém o dois.
Considero as três primeiras opções sinônimo de instabilidade em um momento de consolidação da política de segurança. Por outro lado, manter os dois exigirá um espírito público (de ambos) maior do que as questões pessoais. Se o secretário e o coronel conseguirem encarar esse momento dessa forma, seria a melhor opção.
Servilho e José Lopes podem ser lembrados daqui a alguns anos como peças importantes num processo de renovação da Segurança Pública em Pernambuco ou podem optar por escutar seus brios e levar o governador a exonerá-los.
Sem dúvida, uma sinuca de bico que já passou da hora de ser resolvida.
Dez dias depois de encerrada a mobilização (de parte) da Polícia Militar por um melhor reajuste salarial, as consequencias das posturas adotadas pelos atores principais ainda repercutem. Vejamos o quadro hoje:
1- Abril começou violento. Estamos no dia oito e já ocorreram pelo menos 92 homicídios em Pernambuco.
2- Há duas semanas não há reunião do comitê gestor do Pacto pela Vida.
3- As arestas entre o secretário de Defesa Social e o comandante da Polícia Militar definitivamente não foram superadas.
4- "Prêmio de consolação" é uma expressão muito falada atualmente nos corredores da SDS.
*Na foto: uma cena da mobilização da Polícia Militar.
1- No acender das luzes: Hoje pela manhã, contrariando o expediente tradicional, a Assembleia Legislativa aprovou em segunda votação a lei complementar que definiu o reajuste da PM. O salário dos soldados vai para R$ 1.881,00. Os integrantes das associações militares dizem que foi uma estratégia para esvaziar a mobilização das 14h.
2- Oficiais já baixaram a guarda: Vinte e três coronéis assinaram documento aceitando a proposta do governo, sos a condição de que a questão salarial volte a ser discutida após as eleições.
3- Posição do comandante: Desde a última sexta-feira, o coronel José Lopes iniciou arriscadas manobras dentro no processo de negociação. Começou apresentando as reivindicações da tropa diretamente ao governador. Com isso, recuperou prestígio entre o oficialato, conseguiu melhorar a proposta salarial inicial e ainda riscou da mesa o secretário Servilho Paiva. No entanto, as relações entre o Derby e a SDS azedaram de vez.
4- Associação de Cabos e Soldados: A ACS esteve sozinha no palácio anteontem e negociou em nome da tropa. A postura foi duramente criticada pelas demais associações e a ACS não participou do movimento de ontem.
5- Governo: Ao dar um aumento diferenciado entre as corporações regrediu vários anos no trabalho de integração entre as polícias. O desgaste de todo esse processo vai despontar e ser lembrado ainda por muito tempo.
Fotos: Bob Fabisak
do JC
Policiais militares resolveram deflagrar operação-padrão na noite de ontem, depois de uma rodada frustrada de negociação com o governo do Estado. Os PMs que atuam como motoristas de viatura não vão tirar os carros dos quartéis e os do patrulhamento a pé só aceitarão trabalhar, caso existam coletes à prova de bala disponíveis. Com isso, o número de PMs nas ruas deve cair drasticamente, já que pouquíssimos têm cursos específicos de direção defensiva e não há equipamentos de proteção pata todo o efetivo. A tropa tomou essa decisão após o secretário de Administração, Paulo Câmara, assegurar que o Estado não tem como reformular a proposta que elevaria o vencimento dos soldados de 1.200 para R$ 1.881 (dos quais R$ 550 corresponderiam a uma gratificação).
A proposta de R$ 1.331 de soldo mais R$ 550 de gratificação para os soldados surgiu na madrugada de ontem, após um fim de semana tenso de negociações entre o comando da Polícia Militar e o governo do Estado. Até a última sexta-feira, a base da tropa ficaria com um salário de R$ 1.600. Bem abaixo dos R$ 2.400 obtidos pelos agentes de Polícia Civil.
O governo melhorou a proposta depois que o comandante da PM, coronel José Lopes, foi ao Palácio do Campo das Princesas, sede do governo, com um documento assinado por 20 dos 30 coronéis da ativa, exigindo isonomia com a Polícia Civil. Uma assembleia marcada para ontem pela Associação dos Militares do Estado (AME) também contribuiu para mostrar a disposição dos PMs em lutar por num reajuste superior ao oferecido inicialmente.
“Não temos pauta de reivindicações. Queremos apenas uma coisa: isonomia com a Polícia Civil”, pontuou o coronel reformado João de Moura, na assembleia realizada à tarde no Derby, área central.
O comandante José Lopes compareceu à reunião ao lado de 12 coronéis. “Estou aqui arriscando a minha cabeça. No entanto, não poderia estar dentro do gabinete em um momento como esse. Já vi a Polícia Militar ficar para trás em outros momentos (de negociação salarial) e dessa vez não vou admitir. Estou com vocês, dentro da legalidade e da ordem”, asseverou o comandante.
Oficiais e praças ressaltaram que, enquanto os policiais civis tiveram o aumento atrelado ao salário, para os PMs restaram apenas gratificações. “Nada desses penduricalhos levamos para a reserva”, destacou o capitão Vlademir Assis, da AME.
Por volta das 16h30, os participantes da assembleia marcharam do Derby para o Palácio do Campo das Princesas. No caminho, criticaram a diferença de salário com relação à Polícia Civil e pediram a saída do secretário de Defesa Social, Servilho Paiva.
Um grupo de dez representantes das entidades militares foi recebido no Palácio, mas não houve acordo. “O governo se mostrou intransigente. Não estamos em greve, mas só dirige viatura quem tiver o curso de direção defensiva e só vai para a rua quem estiver de colete”, concluiu Arnaldo Lima, da Associação dos Sargentos.